Alçado pela maioria do apoio popular, um presidente estreante no cargo tem, em geral, boas condições para iniciar seu governo. O período costuma ser chamado de “lua de mel” – uma metáfora bem ao gosto do presidente Jair Bolsonaro, que frequentemente compara as relações políticas com namoro e matrimônio.

No caso dele, que completa cem dias no Palácio do Planalto nesta quarta-feira, o casório com o povo brasileiro começou mais tumultuado do que o comum.

Nos cem primeiros dias de governo, Bolsonaro já trocou dois ministros, algo inédito considerando os presidentes eleitos após a redemocratização – Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Nesses cem dias, Jair Bolsonaro fez quatro viagens internacionais. No começo de janeiro, o presidente foi ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde causou estranheza ao fazer um discurso muito breve; em março, os Estados Unidos foram o destino da sua primeira visita bilateral, onde, além de reafirmar sua admiração pelo país e pelo presidente Donald Trump, firmou acordos de colaboração em setores diversos.

Logo depois, ele compareceu à reunião, em Santiago do Chile, dos 8 países que propõem a criação do Prosul, o grupo que substituiria a Unasul, reunindo governos latino-americanos de orientação liberal.

No começo de abril, o presidente foi a Israel, mas acabou não cumprindo a polêmica promessa de campanha de transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. No lugar, anunciou a abertura de um escritório comercial na cidade milenar e surpreendeu ao comparecer ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu, no Muro das Lamentações.

As duas ações foram interpretadas como um primeiro apoio à reivindicação de Israel de que Jerusalém seja reconhecida como sua capital, apesar da resistência da maioria da comunidade internacional que prefere seguir a resolução da ONU que considera o status da cidade como partilhado dependente de um acordo de paz entre israelenses e palestinos.

Resultados

Os principais resultados concretos vieram da decisão de Bolsonaro de dar continuidade ao Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) criado pelo ex-presidente Michel Temer: o governo concedeu à iniciativa privada 23 obras de infraestrutura, que vão gerar R$ 6,7 bilhões de investimentos em até 30 anos, além de R$ 7,7 bilhões de arrecadação com outorgas.

Por outro lado, há expectativa para negociação, Bolsonaro consiga aprovar no Congresso mudanças na Previdência, uma vitória que pode fortalecer seu governo.

O presidente cumpriu com sua promessa de campanha de não dividir sua administração com partidos em troca de apoio, o que ele chama de “toma lá da cá”. Convocou para os ministérios nomes mais técnicos, como Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça), outros considerados mais ideológicos, como o chanceler Ernesto Aarújo, e deu oito pastas para militares, como o general Augusto Heleno, que comanda o Gabinete de Segurança Institucional.

Sem outra estratégia de negociação política, porém, Bolsonaro não conseguiu montar uma base no Congresso. Um governo de minoria exige mais negociação a cada projeto analisado pelo Congresso e significa mais instabilidade.

Na falta de alianças com partidos, são os ministros egressos das Forças Armadas que “parecem entender a complexidade que é governar o Brasil” e “têm sido elemento de moderação política” no governo.

Nesse contexto, o vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, tem ganhado um protagonismo incomum, ao proferir declarações que buscam amenizar falas ou decisões polêmicas do presidente e sua família.

A economista Monica De Bolle, diretora de estudos latino-americanos da Johns Hopkins University, também não vê perspectiva de que o presidente modere sua conduta. Diante da fraca articulação política, ela acredita que o mais provável é que o Congresso aprove uma reforma da Previdência modesta.

“Não existe mudar o Bolsonaro. Eu não gosto das comparações com Donal Trump (presidente americano), mas nesse ponto eles são iguais. Já deu pra ver que o cargo de presidente não vai mudá-lo”, afirma.

Um dos principais interlocutores de Paulo Guedes, o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni se mostra mais otimista. Embora reconheça os percalços políticos, ele ressalta que as principais lideranças do Congresso, o presidente da Câmara (Rodrigo Maia) e o presidente do Senado (David Alcolumbre), estão “totalmente apoiando, não só a reforma da Previdência, mas a agenda liberal” do governo.

“Aprovando a reforma mais difícil (Previdência), você terá espaço para tratar de outras reformas pró-crescimento, a principal delas a tributária, que já está sendo desenhada, com simplificação e redução dos tributos que penalizam investimento, e também a abertura da economia para dar choque de competitividade”.